DEPOIMENTO: Amadrinhamento e amizade (D)

  • Ana Paula, idade, Cidade/ Estado, para o livreto COLCHA DE RETALHOS.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


"Eu não bebo."  A frase, dita no depoimento de uma companheira e amiga, encheu-me de esperanças.  Iluminada - assim o creio - por um Poder Superior a nós mesmos, ela falava com entusiasmo sobre sua vida e seus longos dias.  Como mães e donas de casa, nossas histórias como alcoólicas assemelhavam-se num passado cheio de dor e ressacas.  De um lado, em meio a gestos e expressões, as palavras fluiam seguramente, transmitindo a paz enfim resgatada.  Do outro, sob forte emoção, apenas esperanças.
 
Era uma noite de junho.  Era meu retorno ao grupo, com o propósito de viver um dia de cada vez.  Como ela, bebi durante longos anos.  Muito embora meu marido não bebesse, sempre trazia minha bebida preferida nos finais de semana.  Não havia problemas em relação ao álcool, até eu descobrir a importância dele em minha vida.  Com o tempo, minhas doses foram aumentando e, consequentemente, a frequência dos porres.  A tranquilidade e a paz foram logo substituídas em pequenos frascos espalhados em lugares estratégicos, onde eu pudesse beber sem correr o risco de ser flagrada.  Minha casa virara um depósito de bebidas.
 
Lembro-me de que, na época, eu trabalhava como funcionária pública e, por força da minha dependência de álcool, fui obrigada a afastar-me, com o intuito de submeter-me a um tratamento terapêutico.  Procurei um bom psiquiatra, especialista no assunto, mas ele não pôde fazer muito por mim.  Mente e corpo desocupados - a ociosidade, definitivamente, levou-me ao fundo do poço.  Interrompi a terapia e passei a beber todos os dias, isolando-me da família e dos amigos com um único objetivo: beber.  Em sete meses nesse inferno, transformei-me numa mulher feia, com excesso de peso, mal cuidada, com enorme sentimento de culpa e autopiedade.
 
Cinco anos depois, minha irmã está comigo e, pela primeira vez, ouvi falar de Alcoólicos Anônimos em minha cidade.  Parecia-me distante e de difícil acesso.  Ingressei na terceira reunião e, na companhia dela, frequentei regularmente nos primeiros três meses.  Nunca esqueci as primeiras reuniões, com seus depoimentos marcantes.  A sensação de bem-estar era imensa, mas eu nada entendia.  "Nunca mais" era muito forte para minha cabeça, enquanto vinte e quatro horas não era tempo suficiente e eu não estaria "curada".  Essa confusão gerou uma primeira recaída, seguida de outras e outras, sucessivamente.  Meus filhos, que antes me apoiavam, passaram a olhar-me com indiferença e desprezo.  Para eles, não havia justificativas, uma vez que eu já conhecia a Irmandade.  Meu marido não sabia qual situação seria pior: admitir que sua mulher era alcoólica e aceitar-me como membro de A.A., ou ter que conviver com uma bêbada.  Entre dúvidas, questionamentos, retornos e recaídas passaram-se seis anos.
 
Mas, aquela noite de junho, em companhia de adoráveis irmãos, superou todas as minhas expectativas.  O compromisso de tornar-me parte veio juntamente com uma soma de valores e renúncias, aceitação, percepção e, ainda, como presente, ganhei a amizade da companheira que, através de um Poder Superior, levou-me de volta ao grupo.  Na época, não nos conhecíamos, mas ela, sabendo da minha dificuldade de permanência em A.A., procurou-me várias vezes, pacientemente.  Hoje, amigas e companheiras, temos quase que uma necessidade de apoio mútuo.  Dessa forma, nossos problemas pessoais, compartilhados, facilitam nossa identificação e a prática da programação, fortalecendo-nos por mais um dia.
 
Aprendi a ser mais paciente e tolerante comigo mesma, permitindo que o próprio tempo se encarregasse de propiciar-me serenidade suficiente para conviver naturalmente com os perigos e ameaças que nós, alcoólicos, estamos sujeitos a enfrentar no dia a dia.