DEPOIMENTO: Dez horas para a rendição (D)

  • Dionea, 35 anos, Cidade/ Estado, para o livreto COLCHA DE RETALHOS.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Tenho 35 anos e sou alcoólica, mas já não bebo há quase cinco anos e busco levar uma vida em paz.
 
Lembro-me de que tudo foi sempre tão conflitante em minha vida que só consigo vislumbrar, com felicidade, uma pequena parte da minha infância, com piqueniques, brigas com bolotas de carrapicho e mamonas, e muitas incursões nos pastos que rodeavam minha casa.  E, já na adolescência, a capacidade de ser feliz parecia ter se esgotado em mim.  Hoje, consigo lembrar-me de uma eu jovem, não convencida de seus possíveis atributos, mas certa de ser, quase invariavelmente, o centro de atenções.  Em casa, no trabalho e na vida social, eu conseguia manipular pessoas, tudo em nome de uma personalidade forte.
 
Um espírito de liderança fez-me angariar muitos amigos e também antipatias.  Não me importava; conseguia sair vitoriosa em todas as minhas empresas - assim eu acreditava.  Em casa, conseguia provocar ciúmes nos irmãos por entenderem que meus pais (notadamente minha mãe) demonstravam certa preferência por essa filha que já começava a ter e dar problemas.  Lembro-me de que minha mãe sempre dizia que, por ser meio desmiolada, eu precisava de atenção especial.
 
Então, eu era especial e confundia tudo cada vez mais.  Nessa época, eu não conseguia tolerar nenhuma derrota e já começava a sofrer algumas.  De melhor aluna do quarto ano primário, cheguei a estar relacionada entre os estudantes com piores notas da faculdade.  Onde estava a grande-eu-sabe-tudo?  Por incrível que pareça, eu tentava fazer da minha irresponsabilidade perante as coisas da faculdade, um motivo de admiração por parte dos colegas.  E, mais incrível ainda, eu conseguia!
 
Eu sentia que todos me admiravam, também, pelo modo como eu bebia e pela liberdade de ir e vir que eu sempre ostentava.  Eles não sabiam que o medo me rondava e que o desespero já morava em minha casa interior.  Entretanto, eu ainda era admirada e cortejada e precisava desesperadamente disso para viver.
 
Na fase adulta, eu passava, alternadamente, por períodos de verdadeira euforia e outros de profunda depressão.  Não sei ao certo em que período conseguia beber mais.  Não conseguia mais representar bem nenhum papel e o processo de autodestruição, até então camuflado, passou a ser uma realidade dura de encarar.
 
Em meio a tudo isso, veio minha filha.  Por ser muito querida, pretendi que ela significasse meu renascer.  Assim, a maternidade e a grande alegria de ter colocado no mundo aquela criaturinha permitiram-me descansar por um curto período.  Amava minha filha e queria seu bem acima de tudo, mas por que então não ir embora cedo para casa fazer-lhe todos os carinhos que se desenhavam em minha cabeça?  Tarde demais; já havia bebido e, de copo na mão, imaginava-a em casa, em seu bercinho, e chorava pela minha incapacidade para reger minha própria vida.
 
Por onde andavam todos os meus planos, sonhos e boas intenções?  Onde buscar aqueles furtivos momentos de glória da grande-eu-sabe-tudo?  Eu estava miseravelmente só, as pessoas não me queriam mais, e eu não queria mais as pessoas.  Quando eu as tinha por perto, somente serviam como referencial para que eu sentisse, com maior exatidão, a que ponto havia descido.
 
Precisava parar de beber - ou, quem sabe, , beber de forma moderada.  Tentei, claro, a segunda alternativa.  Hoje sei que a ideia de algum dia poder controlar e aproveitar a bebida constitui a grande obsessão de todo bebedor anormal.  Persegui essa ilusão até as portas da loucura.  Muitas vezes, pensei que um modo de acabar com aquela vida seria continuar bebendo, sempre e cada vez mais.
 
Após anos dessa tortura, aconteceu minha rendição.  Um Poder Superior, Deus, como eu O concebo, usou minha filha para concretizar meu renascimento.  Num domingo maravilhoso, com ela em minha companhia, não consegui me controlar e tive uma das piores bebedeiras de minha vida, com direito a um apagamento que durou cerca de dez horas.  Deus, que tenho por meu Pai-Todo-Poderoso, usou minha filha para acordar-me.  O que fiz minha filha passar naquelas dez horas?  Não sei e jamais saberei.
 
Quando acordei, ela estava com seu chinelinho arrebentado e com o rostinho num misto de vermelho e preto, de tanto chorar e esfregá-lo com suas mãozinhas imundas.  Entreguei-a em casa, bradando, ainda bêbada: "tomem a filha de vocês!  Se estavam preocupados com ela, ela está aqui.  Quanto a mim, deixem-me em paz!"  Clamaram para que eu não voltasse para a rua, mas mesmo o choro compulsivo de toda família e até ameaças de meus irmãos não conseguiram deter-me.
 
No dia seguinte, surgiram todas as misérias físicas pelas quais um alcoólico passa no dia seguinte.  Humilhada, busquei Alcoólicos Anônimos.  Após duas reuniões, declarei, em prantos, minha condição de alcoólica que precisava de ajuda.  Senti-me livre, com uma felicidade que somente posso creditar a Deus.  Senti-me fazendo parte daquela turma, pronta a aceitar e fazer qualquer coisa que me livrasse de minha obsessão alcoólica.
 
Tive algumas compulsões, próprias do início da abstinência, mas, repetindo quase as mesmas palavras do Dr. Bob (cofundador de Alcoólicos Anônimos), em nenhum momento estive próxima de ceder.  Hoje, a compulsão e a obsessão não mais me acompanham.  Parecem ter sido retiradas de minha vida.  Obrigada, Deus!
 
Ainda sofro por coisas que desejo e não consigo.  Ainda sou adolescente no programa de recuperação e não consigo caminhar de forma plena em direção à vontade de Deus.  Ainda me vejo sempre presa a meus objetivos limitados e quase mesquinhos.  Mas A.A. é, para mim, uma estrada diária interminável, e o que importa é que eu não fique parada.
 
Somente por hoje, trago a certeza de que nada que me aconteça na vida será motivo para voltar a beber.  Estive na escuridão e já começo a ver luz.  Ontem, estive desnorteada e, hoje, conheço meu rumo; não tinha domínio algum sobre minha vida e, hoje, começo a sentir-me novamente uma pessoa plena.  Quero vida com qualidade, e só a filosofia de A.A. propicia-me isso.  É precio que eu esteja sóbria para compreender e colocar em prática os princípios de A.A..  E, a cada vez que consigo entender mais um pouquinho, mais amo, mais sou grata e responsável.
 
Ainda não consigo praticar os princípios espirituais de Alcoólicos Anônimos em todas as minhas atividades, mas venho tentando e, quanto à minha casa, a certeza de que meus familiares não se desesperam mais pela expectativa de verem-me chegar embriagada muito me conforta.  Minha filha e eu somos amigas e nos amamos.