DEPOIMENTO: Enfim, deu-se o clique! (D)

  • Edite, 36 anos, Cidade/ Estado, para o livreto COLCHA DE RETALHOS.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Meu desacerto na vida vinha de muito longe.  Desde a mais tenra idade, eu já tinha certeza de que daria tudo errado.  Nasci na roça, perdi meus pais aos quatro anos de idade e colocaram-me num ofarnato.  Lá fiquei até a idade de vinte e um anos.  Era uma cidadezinha de interior.  Fui uma criança problema e alguns diziam que eu era um prodígio.  Briguenta, chorona, raquítica, feia, mas muito inteligente.  Sempre me sobressaía e era acolhida para atividades, cursos, bolsas de estudo, etc..  Tive boa educação moral e religião, mas minha mente registrou também complexos, medo, e lembro-me de ter ouvido, no decorrer dos anos, frases como essas: você não presta para nada; essa menina vai dar pano pra manga; pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto.
 
Certa vez, o colégio resolveu fazer uma feijoada para angariar fundos.  Havia muito a fazer para organizar o quintal enorme com mesinhas e cadeiras.  Um conjunto musical viria da capital e a nata da sociedade local fora convidada.  O cozinheiro, também famoso, veio na véspera para distribuir as tarefas.  Advinhem o que caiu para mim?  O ponche.  Deram-me as instruções, um caldeirão grande onde teria que picar frutas bem fininhas e colocar, aos poucos, vários tipos de bebida.  Cuidado com essa aqui; ponha um pouquinho e vá provando.
 
Eu nunca tinha experimentado bebida em minha vida.  Achei o gosto fantástico e fui bebendo pinga pura.  Foi assim meu primeiro porre.  Um escândalo.  Eu devia ter uns catorze anos.  Sei que rolei uma escada enorme e trancaram-me no banheiro, onde quebrei o vaso.  Trancaram-me na cozinha, ali achei uma garrafa de vinagre e bebi-a toda.  Vomitei e senti um gosto horrível, razão pela qual até hoje não suporto cheiro de vinagre.
 
No dia seguinte, acordei com a diretora do colégio, o padre da cidade e o médico, que era também prefeito, à beira da minha cama.  Cada um à sua maneira, passaram-me sermões sobre a bebida.  Por pouco, não me mandavam para um reformatório.
 
Passado o episódio, recomencei vida normal.  Ali, não tinha bebida e passei muitos anos a seco.  Só um Poder Superior sabe que efeitos aquilo causou em minha vida.  Sei apenas que, já adulta, toda vez que bebia, tomava um porre.  Morria de vergonha, culpa, remorso e jurava nunca mais beber.  O juramento, às vezes, durava anos, mas de repente, outro porre, outro vexame e novo juramento.
 
Tornei-me uma pessoa instável, insegura, nômade, insatisfeita, e mudava de endereço, trabalho e namorado com rapidez incrível.  As pessoas achavam-me estranha e tentavam ajudar, mas pouco ou nada conseguiam.  Aos vinte e seis anos, cheguei em A.A. - para mim, um real milagre.  Uma sala de grupo, como tantas outras que já tinha frequentado; porém encontrei tudo de que precisava para resolver meu problema com o álcool e com o mundo, pois, tenho certeza, ainda que naão tivesse bebido, seria uma pessoa problemática.
 
Foram necessários anos para eu admitir que sou alcoólica.  Fiz todos os testes, tentei frequentar uma Irmandade paralela para tentar resolver minhas neuroses e poder beber de vez em quando.  Os companheiros já deviam estar cansados.  Uma noite, cheguei e sentei-me perto de um grandão, chamando-o de lado.  Bebi de novo, não vou conseguir, eu lhe disse.  Se eu fosse você, iria beber; você não é alcoólica, respondeu ele.  Essa foi a frase do meu clique.  Fiquei com raiva dele e lembro-me de ter-lhe dito que iria tentar e, se conseguisse evitar o primeiro gole um dia por vez, durante um ano, eu o escolheria para ser meu padrinho.
 
É claro que eu teria de mencionar muitas outras coisas, que existem na Irmandade onde ganhei nova vida, as quais me ajudaram a manter-me sóbria: o carinho, os puxões de orelha, a amizade.  Num instante, eu já tinha uma agenda cheia de nomes e números de telefones.  Nunca mais fiquei sozinha.  Passeios em grupo, apertos de mãos, reuniões de unidade, novos companheiros e amigos.  Noites de fim de ano nos grupos e em casas de companheiros; reuniões só para alcoólicos.  Nessas oportunidades, fui fazendo as pazes com grande parte do mu passado.  Ouvidos cedidos em quinto Passo - quanta paciência, compreensão e absoluto sigilo.
 
Assim é Alcoólicos Anônimos, que salvou minha vida e continua salvando vidas de alcoólicos pelo mundo afora.  Obrigada por esse espaço.