DEPOIMENTO: Aceitação gera a felicidade (D)
Bebi durante trinta anos. Às vezes mais, às vezes menos. Mas sempre colocava a bebida como parte essencial de qualquer atividade na qual estivesse envolvida, quer eu a rotulasse social, familiar, profissional ou mesmo existencial. Era sempre a bebida, ou melhor, a quantidade de bebida que haveria naqueles locais que determinava se aqueles seriam momentos dos quais valeria a pena participar. Eu sempre achava que beberia apenas o quanto quisesse, mas sabia que sempre queria muito. Alcoólica? Eu? Não, claro que não. Apenas uma mulher que sabia beber.
Com o passar do tempo, a importância da bebida, a frequência com que eu bebia e minha dependência foram aumentando. Lembro-me de uma consulta com meu médico, que era também meu amigo, na qual ele perguntou-me se eu andava bebendo muito. Ora, socialmente! - foi minha resposta, já na defensiva. Ele retrucou: Sei, mas com uma vida social muito intensa, não é? Cuidado! Considerei a advertência como brincadeira e não pensei mais naquilo. Afinal, eu não era alcoólica.
Os pretextos sociais foram se tornando desnecessários. Qualquer coisa era motivo para beber, mesmo em dias e noites comuns. Se, depois de uma nooite regada a muita bebida, eu chegasse a casa e não houvesse um último gole antes de dormir, o desespero era insuportável. Se, em casa, alguém dizia você bebeu demais... (o que passou a acontecer cada vez mais), eu apagava a raiva com mais um ou dois goles antes de dormir, muitas vezes escondidos num vidro de perfume ou na garrafa de álcool guardada no banheiro. Dependência? Claro que não. Eu gostava de beber, só isso. Alcoólica? Claro que não. Alcoólicos bebem pela manhã e o dia todo. Eu só bebia à noite. Alcoólicos têm problemas de fígado, alcoólicos tremem se não bebem. Eu não.
Mas eu não podia mais imaginar minha vida sem álcool. Não conseguia compreender como as pessoas, sobretudo as mulheres, conseguiam resistir à pressão do dia-a-dia, dos problemas, trabalho, filhos, marido, casa, vida, sem alguma coisa para relaxar. Pensava: por isso são tão neuróticos e problemáticos. Não era meu caso; eu conseguia lidar com tudo. Com ajuda do copo. Mesmo porque, sem beber, como seria possível conversar, ser inteligente e interessante? Como aguentar as pessoas chatas sem um estimulante para sorrir? Como ter coragem para acabar um casamento desastroso e viver às minhas custas, com um filho ainda pequeno? E todos os outros problemas, como enfrentar? Ah, mais que beber, eu merecia mesmo relaxar.
Nos últimos dois anos antes de chegar a Alcoólicos Anônimos, eu estava bebendo praticamente um litro de cachaça por noite, quase todas as noites. Mantinha meu emprego, sem faltar ao trabalho que, convenientemente, começava às 10 da manhã. Levava meu filho à escola antes de ir trabalhar (claro que, quase sempre, ele chegava atrasado) e apanhava-o na saída. No caminho para casa, a passagem pelo supermercado era obrigatória. melhor dizendo, pelos supermercados, porque a vergonha e a culpa já estavam comigo e eu fazia de conta que não comprava tanta bebida fazendo-o, a cada dia, em um lugar diferente. Depois de colocar meu filho na cama, eu começava a beber. Direto no gargalo da garrafa, sem mais pretextos e o quanto aguentasse, até apagar. Acordava no dia seguinte, com dor de cabeça e recomeçava a rotina, jurando diante do espelho que nunca mais beberia. O juramento acabava na volta para casa, na automática ida a mais um supermercado. E recomeçava na manhã seguinte.
Nessa época, comecei a ler tudo o que me caísse nas mãos a respeito de alcoolismo. Puro interesse pelos que bebiam demais - eu sentia pena das pessoas que não conseguiam controlar-se. Eu, às vezes, ficava um pouco trêmula e, no trabalho, era complicado escrever, mas não havia nada demais comigo, só nervosismo de momento. E, é claro, eu não era alcoólica: conseguia ficar 48 horas sem beber (uma vez por semana), não bebia de manhã... podia beber à noite, tudo bem. E sempre achava que beberia menos no dia seguinte. Só um gole.
Até o dia em que, indo lavar o rosto ao acordar, eu me descobri cheia de manchas roxas. Rosto, corpo, tudo. O que era aquilo? Tinha levado um tombo, era óbvio. Mas onde? Como? Por que bebi tanto? E agora? Como eu ia sair de casa? Fui para a cozinha e descobri que tinha deixado o fogo aceso durante toda a noite. O quarto do meu filho, então com cinco anos de idade, ficava ao lado da cozinha e sua cama era encostada à parede onde estava o fogão. Nunca vou encontrar as palavras certas para descrever o que senti naquele momento, quando percebi que, por ter bebido tanto na vépera, poderia ter matado meu filho.
Falando com uma amiga pelo telefone, ela aconselhou-me a jogar fora o resto da bebida. Enquanto viver, vou me lembrar - e preciso lembrar - do pânico que senti quando descobri que, apesar de todo horror, de todo susto, eu não conseguia jogar fora o resto de cachaça que quase destruiu a vida do meu filho e a minha. Naquele momento, comecei a admitir que era - e sou - alcoólica. E a aceitar. Foi ali que, ainda sem essas palavras, reconheci-me impotente diante do álcool. Entendi que ele era mais forte que eu e percebi que precisava de ajuda para livrar-me daquela desesperada necessidade de beber, cada vez mais.
Eu tinha um amigo, uma pessoa pela qual tinha enorme admiração e que estava há muito tempo em Alcoólicos Anônimos. Era tudo que eu sabia sobre A.A., mas era uma esperança. Ele poderia ajudar-me a entender o que estava acontecendo comigo. Tomei a decisão de ir conversar com ele. Fui e, com imenso alívio, entendi que havia outras pessoas que, como eu, tinham sofrido por causa do alcoolismo e conseguiram recuperar-se; e que não era minha loucura particular o que me fazia beber sem querer fazê-lo, mas sim uma doença, contra a qual a única maneira de lutar seria o compartilhar de experiências, forças e esperanças, um dia de cada vez.
Estou até hoje sem beber, graças a essa Irmandade que, entre tantas vidas, ajuda a salvar a minha. Graças a cada um de vocês. Foi assim que um Poder Superior mostrou-me o caminho da recuperação. Pela imprescindível aceitação da evidência do meu alcoolismo. Pelo reconhecimento da minha doença e da minha impotência perante o álcool.
Nesses quatro anos de recuperação, tenho aprendido que, além do álcool, existe uma série de outras coisas perante as quais sou impotente. E que a melhor maneira de lidar com elas - a ferramenta mais eficiente que o programa de A.A. coloca à minha disposição - é exatamente o reconhecimento dessa impotência e a consequente aceitação daquilo que não posso modificar. Com a serenidade que Deus me concede, se eu confiar n'Ele.
Frequentando as reuniões de meu grupo base, aprendo que a vida não é feita só de grandes alegrias nem de um bem-estar permanente. Por mais que eu busque praticar os princípios de A.A. em todas as minhas atividades, passei, nesses últimos anos, por dificuldades que, a princípio, pareceram-me insuperáveis, ou mesmo injustas. Mas, com ajuda de meus companheiros e, principalmente, de meus padrinhos, venho aprendendo que qualquer dificuldade é uma experiência da qual posso guardar lições importantes. No momento em que tudo parece sem solução e que sinto vontade de perguntar a Deus por que Ele está me fazendo passar por aquilo, posso parar e mudar a pergunta. É simples: o que aprenderei com aquela dor?
Assim, venho conseguindo não me revoltar nem lutar com problemas que, tal como o álcool, são muitos mais poderosos do que a minha simples vontade. Assim, venho conseguindo enxergar meus problemas como experiências, vivendo-as e aceitando-as um dia de cada vez, confiante de que existe um Poder Superior que não só pode devolver-me à sanidade como certamente quer para mim a melhor vida possível.
Um dia, o Deus no qual eu ainda não acreditava mostrou que a melhor maneira de parar de beber era aceitar que sou alcoólica e ingressar em Alcoólicos Anônimos. Esse mesmo Deus - tal como hoje concebo um Poder Superior e no qual hoje tenho fé - tem me mostrado que o melhor caminho para superar obstáculos é aceitá-los como e quando se apresentam, tentando conviver com eles com a certeza do melhor final. Só depende de mim.
Quando decidi compartilhar sobre aceitação, fui ao dicionário procurar o signficado do verbo aceitar e da palavra aceitação. Havia muitos, nenhum me satisfez e não vou repetí-los aqui. Preferi buscar minhas próprias palavras, porque todas aquelas me pareceram insuficientes para definir o que hoje concebo como aceitação à luz do programa de A.A.. Nenhum daqueles significados falava em fé e, para mim, aceitar implica - antes de mais nada - em ter fé. Fé incondicional num Poder Superior, tal como cada um O concebe e que - assim creio eu - quer o melhor para mim e para cada um de nós.
Como alcoólica em recuperação que sou, defino o verbo aceitar como a melhor maneira, talvez a única, de ser feliz. E a palavra aceitação é, para mim, como o grande segredo, o 'pulo do gato' para viver cada dia praticando os Doze Passos e tentando viver em harmonia com o mundo ao meu redor.