DEPOIMENTO: Encontrei meu lugar (D)
Morena bonita, pele quase cor jambo maduro, ancas provocantes, lábios carnudos com sabor de mel - admiradores comparavam-nos com os da Iracema, personagem do Alencar cearense -, inteligente, sempre entre os primeiros lugares nos estudos, nasci e vivi muito tempo num cantado e decantado bairro coêmio, cheio de lirismo, de inspirados poetas e compositores, foco de antigos e inesquecíveis carnavais, num Estado que ocupa lugar de destaque em todas as artes, pela constante e seleta exportação de nomes de primeira grandez, nas artes hoje existentes e nas que hão de vir.
Sendo jeitosa e faceira, anos em flor e contrariando o comentário popular de que mulher bonita geralmente é burra, eu tinha um sonho que foi se tornando um grande desejo, de fato, uma fixação: queria ser diplomata. Obstinada, estudei muito, passei por universidades e cheguei a fazer provas no Itamaraty. Tudo em vão. Comecei a beber e meus sonhos tornaram-se castelos de areia erguidos ao redor de mesas de bar.
Desde criança, acostumei-me a ouvir, nas frequentes reuniões festivas que aconteciam em casa, que mulher não bebe, bebida é para homem. Realmente, eu observava que somente os homens bebiam, naquela intenção de ficar à vontade, descontrair, ouvir música, cantar, dançar e namorar. As mulheres limitavam-se à preparação dos comes. Nos bebes, ingeriam inocentes refrigerantes e sucos de frutas tropicais.
A princípio, até que eu gostava das festas. Praticamente, toda semana recebíamos em casa cantores da rádio local, além de músicos da melhor qualidade na execução de páginas imortais da música, popular e clássica. Com o passar do tempo, contudo, amedrontava-me ante a simples ideia de mais uma festa, pois geralmente iniciava bem, mas, por conta do descontrole na ingestão do álcool, após algumas horas, começavam os desacatos e brigas, que terminavam em escoriações generalizadas, sangue e hospital.
A casa, que hoje não mais existe, era grande, sobrado antigo com muitos aposentos. Nas citadas festas, logo que eu pressentia desentendimentos no ar, procurava um dos quartos e escondia-me sob uma cama, apavorada, só reaparecendo no dia seguinte. Jamais esqueci as lágrimas da minha velha mãe e os impropérios de meu pai, naqueles inúmeros e desesperados dias seguintes. Logo que meu pai morreu, fui residir com a família num bairro a seis quilômetros do centro. As desastradas festinhas foram rareando, só acontecendo em aniversários, fins de ano, carnavais e épocas juninas.
Aos dezoito anos, cheia de graça e vaidade, desabrochando para o amor e a vida, encantava-me com as descobertas. Moços fogosos ao redor, na milenar arte da sedução e da conquista. Inquietações filosóficas no descortinar de Nietsche e de Shopenhauer. Precisando trabalhar, para manter meus estudos e pesquisas, fui admitida numa rede bancária nacional, chegando a assumir postos de chefia. Entrei na universidade. Dava expediente no banco pela manhã, à tarde assistia às aulas e à noite devorava livros. Continuava em busca. Jamais encontrei o que buscava - e talvez nunca encontre, porque saboreio mais a busca que o encontro.
Após o expediente, ou a última aula, ou nos fins de semana, chegavam insistentes convites para bate-papos molhados nos bares da vida. Eram encontros sem maiores compromissos e consequências. Dois ou três refrigerantes, batatinha frita, camarão na manteiga. Alguns colegas sugeriam que eu tomasse um copo de alguma bebida alcoólica. Eu achava sempre horrível o gosto das diferentes bebidas, fazendo caretas a cada gole. Mas, para não ser do contra, entrei nessa e entrei bem. A dependência de álcool, em pouco tempo, tornou-se absoluta - alcoolismo.
Mesmo assim, ainda assumi invejados postos em empresas de renome e tive boas notas nas universidades, formando-me com louvor em todas elas. Ainda tirava de letra qualquer desafio, sempre bebendo. Namorei todos os rapazes interessantes que encontrei, chegando a noivar com um deles e aterminar o noivado na porta da igreja, enlouquecendo o pobre jovem, tão bom e que me adorava. Eu também o queria, mas o casamento atrapalharia minhas farras.
Assim - sem compromissos, violão sob o braço, vivendo eternas saudades de amores que se foram, desejando encontros com amores que poderiam surgir e excitando-me com novas emoções -, vinte anos se passaram. Perdi o interesse pelo trabalho, pela política, pelos questionamentos filosóficos e pela vida. Havia agora desconforto e constrangimento quando eu aparecia nas rodas de amigos bem educados, intelectuais, executivos, pessoas que bebiam e sabiam quando parar. Eu não sabia. Queira ficar bêbada, sempre. Bêbada e só, cada vez mais só. Ninguém mais me desejava por perto. Muito triste na solidão, eu afogava as mágoas na bebida, acompanhada apenas pelo violão, na paisagem agora inútil das noites de verão, lua muito branca no céu iluminando o jardim de flores murchas e folhas mortas no qual eu me convertera.
Vergonha. Um terno esconder-me nos lugares mais afastados, pois me amedrontava diante da possibilidade de ser vista pelos amigos, bebendo ou alcoolizada. Desesperava-me em recantos ermos, entregue à própria sorte, à sanha dos mais adoecidos, desconhecida de todos. E bebia. Sofria terríveis dores de estômago e de cabeça, tremia, não raciocinava mais, agredia. Obsessão, derrota, tentativas de suicídio, tratamento psiquiátrico, operações, coma, vela na mão, prenúncio de morte prematura. Não havia mais desejo nem a menor fixação no objetivo da juventude - afinal, não fazia sentido uma diplomata bêbada. Era preciso dar um basta.
Nessa absoluta derrota, sem amigos nem perspectivas, cheguei ao ambiente aconchegante de um Grupo de A.A.. Sozinha em meu desespero, espantei-me diante dos sorrisos abertos e francos - esquecera-me do jeito de sorrir aberto. Necessitava amar. Carecia muito de ser amada. Fiquei alegre com aquela recepção. De pronto, entendi que ali era o meu lugar. Descobrir-me novamente humana, gente, capaz de sentir, entender o outro e, sobretudo, amá-lo profundamente, sem barreiras.
Lembrei Nietsche, que "buscava um caos interior para dar à luz uma estrela dançantes". Passei por uma escuridão medonha, por um caos avassalador. E eis que me deparei com o maravilhosos brilho da estrela dançante a mostrar-me um caminho novo, seguro e sereno. Senti, humildimente, a profunda necessidade de conviver com os recém-encontrados irmãos, de ser igual a eles, de dar o primeiro passo. E dei.
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