DEPOIMENTO: Ponto final no sofrimento (D)

  • Marli, idade, Cidade/ Estado, para o livreto COLCHA DE RETALHOS.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Minha vida de sofrimento começou bem antes de eu haver completado sete anos de vida, pois via as angústias do meu pai com sua maneira de beber, presenciando violentas brigas travadas entre ele e minha mãe.  Calada e trancada em meu mundo, a tudo assistia sem nada poder fazer.  Por muitas vezes, chorei e pedi ajuda a vizinhos.  Ninguém se interessava pelo meu sofrimento, e, às vezes, diziam-me: em briga de marido e mulher, miguém mete a colher.
 
Quando completei sete anos, o destino pregou-me uma peça.  Quis um Poder Superior que eu ficasse sem minha mãe, que faleceu à espera do sétimo filho, dos quais três vieram também a falecer.  Assim, ficamos três ao todo.  Com essa pouca idade, comecei a experimentar as primeiras doses de bebida alcoólica.  A princípio, bebi para extravasar a raiva que sentia por tudo que me acontecera.  Depois, continuei a beber, levada pelos costumes de uma seita religiosa da qual eu participava.  Por fim, beber era um triste hábito.
 
Aos onze anos, senti-me independente e livre para enfrentar os bares, achando muito bonito estar com um copo na mão e um cigarro a bailar entre os dedos.  Nessa fase, passei por uma grande decepção e bebi com maior frequência, talvez por não ter com quem compartilhar o sofrimento e a vergonha, já muito grandes a essa altura.  A seguir, fui hospitalizada e, quando obtive alta, mandaram-me para outro estado.  Imaginei que, convivendo com outras pessoas, em outro ambiente, poderia começar uma nova vida, sem os tormentos do passado.  Mais uma vez, enganei-me.  Em pouco tempo, estava bebendo muito outra vez.
 
Não demorei a encontrar um companheiro, com o qual fui viver.  Dessa união, nasceram nossos filhos, razão pela qual consegui parar as bebedeiras.  Mas, como a doença não morre com uma simples parada, desenvolvendo-se em longo prazo, não tardou para que viesse novamente à tona.  Assim, até que sofri dois atropelamentos, sendo hospitalizada inúmeras vezes.  Discussões e brigas tornaram-se rotina em meu lar.  Muitas vezes, minha vida e as de meus filhos ficaram expostas aos riscos do alcoolismo.  Acredito que todo mundo tem um grande dia na vida, um dia D pessoal.  Essa ocasião concretizou-se para mim nesse mesmo mês, quando ingressei na Irmandade Alcoólicos Anônimos e coloquei um ponto final no sofrimento.  A partir daí, as coisas começaram a modificar-se para melhor.  Graças a A.A., hoje sei que sou alcoólica, que alcoolismo é doença e que devo não beber apenas um dia por vez.
 
Quero dizer a meus companheiros e, principalmente, às minhas companheiras, que devemos estar unidos com uma certeza: a esperança de vivermos cada dia de nossa vida, distantes da bebida alcoólica, para podermos dar sequência ao nosso viver em ambiente de confiança, amor, paz e felicidade.  Dessa forma, tenho conseguido sentir-me gente e, especialmente, mulher.
 
 
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