DEPOIMENTO: Mesmo que você não queira, sua vida vai mudar (D)

  • F.A.S., 48 anos, Volta Redonda/ RJ, para o site Colcha de Retalhos.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Meu nome é F.A.S., sou uma alcoólatra e tenho 5 anos e 6 meses em recuperação.  Eu nasci em Volta Redonda, interior do Rio de Janeiro, e tenho 48 anos.

Minha história com álcool começou como a maioria das meninas, por curiosidade e para me incluir no grupo do bairro novo que havia me mudado, nessa época eu tinha treze anos!
 
Era verão e levaram bebidas destiladas para uma praça - ficamos lá, ingerindo as tais bebidas.  Nesse mesmo dia, eu entrei em apagamento.  Naquela noite eu já poderia ter tomado a decisão de nunca mais beber, pois me recordo de ser uma das piores noites da minha vida.  Eu senti muito mal, vomitei, senti dores abdominais fortíssimas, dor de cabeça e outros sintomas que nem sei descrever.  Mas, eu não parei de beber...  A pressão social me fez continuar e eu descobri a bebida da minha preferência - aquela que eu poderia ingerir mais lentamente e gelada.  Era saborosa… foi amor ao primeiro gole, foi amor à primeira sensação.
 
Os anos passaram, os amores vieram, os amores se foram e as decepções ficavam.  Cada término de relacionamento era como uma catástrofe na minha vida.  Mas se eu me sentisse descartada por um cara, logo colocava outro no lugar - não suportava a dor do vazio.  Eu não entendia porque minhas amigas conseguiam seguir suas vidas, seus estudos e empregos, e eu a me afundar em depressão, álcool, festas, remédios para emagrecer, ansiedade, cigarro e comida.  Todos subterfúgios para me esconder de mim mesma e dos meus sentimentos!
 
Eu sou muito comunicativa e fui fazer Jornalismo numa faculdade no interior de São Paulo, mas, na verdade, foi uma fuga geográfica para não ter que encontrar mais um ex-namorado.  Na faculdade meu alcoolismo se intensificou muito!  Lá conheci a liberdade e passei a beber quase todos os dias.  Conheci o que era viver de sexo, drogas e rock’n roll.  Fui abusada em uma república, por um estudante, enquanto dormia embriagada. 
 
Quase no último ano da universidade minha mente falhou.  Entrei numa depressão profunda com inúmeras crises de pânico, só que sem imaginar que o motivo real dos problemas que estava enfrentando era a doença do alcoolismo.  Fiz um rápido tratamento psiquiátrico, melhorei, terminei o curso e voltei pra minha cidade natal.  Lá comecei a namorar um homem que consumia muito álcool e voltei ao ritmo de sempre: álcool e festas, só que agora trabalhando.
 
Engravidei desse namorado, mas perdi o bebê.  Mesmo assim, ficamos juntos, noivamos mas, um ano depois, do dia para noite, ele me abandonou.  Mais uma rejeição e mais álcool e remédios para esquecer!

Um mês depois , conheci o pai do meu filho em uma festa e fui muito direta com ele, dizendo que queria uma vida estável e um filho.  Ele topou.  Tivemos nosso garoto, que nasceu autista!  Quando ele tinha 8 anos e seis meses eu atingi um fundo de poço muito ruim!  Eu havia passado por uma cirurgia bariátrica nesse interim, e meu alcoolismo progrediu muito.  Não tinha mais limites para o consumo!  Eu começava a beber 8h da manhã e não parava até apagar, por volta das 22:h30 - eu não queria parar.  Dirigi inúmeras vezes embriagada com meu filho no banco traseiro do carro.  Era inconveniente com as pessoas o tempo todo, quando expressava minhas opiniões.  Traí o pai do meu filho.
 
Quando uma escola não aceitou meu filho como aluno por ele ser autista, eu não argumentei ou discuti, simplesmente fui para um bar e bebi das 15h até 3h da manhã.  Nesse dia, quando o pai do meu filho me viu chegar em casa cheia de garrafas para continuar consumindo álcool em casa, ele derrubou tudo no chão e gritou: "Chega!  Acabou !"  Naquele momento eu comecei a ver os vidros se partirem na minha frente como estrelas… como um despertar.  Eu fui dormir… e no outro dia, procurei ajuda de Alcoólicos Anônimos na internet.
 
O primeiro contato se deu por troca de mensagens, mas logo me telefonaram.  A minha madrinha me telefonou, me acolheu e disse que poderia falar comigo o dia inteiro sobre o A.A., mas que eu deveria ir a um grupo para conhecer.  No dia seguinte, 2 de fevereiro eu fui e ingressei!

Ainda não acredito que eu voltava todos os dias àquela sala!  Eu tomava a direção de lá, automaticamente, às 17h30, fizesse chuva ou sol!  Nunca me esquecerei o que disse um companheiro:  "Mesmo que você não queira, sua vida vai mudar“.  E mudou!
 
Meu casamento terminou, mas eu e o pai do meu filho somos grandes amigos!  Eu mudei de país, me casei de novo, meu marido é um AA em recuperação e, coincidentemente, nosso aniversário de sobriedade é no mesmo dia.  Neste momento que escrevo esse relato, estamos voando para a lua de mel!
 
Eu estou em franca recuperação, junto de Alcoólicos Anônimos, da minha madrinha, dos Passos e das minhas seis afilhadas.  Eu sou resistência!  Eu sou um milagre!


► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)