DEPOIMENTO: Infinito (D)
'Meu nome é M., sou uma alcólica em recuperação e estou em sobriedade há mais ou menos dois anos e algumas vinte e quatro horas. Só por hoje não ingerir nenhuma substância que contenha álcool.' É assim que começo minha participação em todas as reuniões de Alcoólicos Anônimos.
Eu bebia socialmente, adorava bebida forte e buscava a liberdade no álcool. Sou codependente, neurótica e antigamente totalmente infantilizada. Meu pai era alcoólatra e morreu de cirrose hepática. Minha mãe, super controladora, me deixava insegura. Ela controlava tudo, dos homens com quem me relacionava, das roupas que vestia e da quantidade de álcool que eu bebia. Ela odiava muito o álcool.
Eu acho que a codependência e a depressão me levaram ao alcoolismo. Comecei a beber demais, a ponto de encher garrafas pet de refrigerante com a minha bebida de preferência. Era assim que eu me anestesiava da dor e da tristeza. A terapia não estava me ajudando a me entender ou a parar de beber. Foi um período muito difícil; tive vários apagões e ia parar nos hospitais.
Um certo dia minha mãe passou mal e eu autorizei sua internação na UTI com gligose alta, desnutrida e com o organismo desequilibrado. Me assustei, pois me senti só, sem saber que fazer. E o pior aconteceu, pois minha mãe faleceu na manhã seguinte. Eu gritei, esperniei e chorei - meu mundo desmoronou. O médico solicitou alguém para me acompanhar e chamei meus primos. Pedi que eles dessem a notícia para a minha irmão, que morava em outro estado.
Após um tempo, tive que desfazer de tudo do nosso apartamento e fui morar na casa de uma senhora, num bairro boêmio. Mas, apesar de gostar dos seus cachorros, era muito difícil lidar com ela. A comida era horrível - emagreci uns 10 kilos, então resolvi sair dali. O meu alcoolismo só piorava e eu mal conseguia ficar em pé. Não sabia nem como chegava em casa.
Fui morar num outro lugar, mas meu alcoolismo que só piorava, prejudicava muito a minha convivência na casa. Eu ligava todo fim de semana para o CVV, mesmo bebendo todos os dias para anestesiar a minha dor e a solidão que sentia da família. Eu estava sem saber o que fazer, até que um certo dia tive que sair de lá e tomei a decisão de morar só.
Foi maravilhoso à época, pois ninguém podia mais me controlar e eu estava livre para beber, embora tivesse vergonha dos outros saberem do meu alcoolismo. No primeiro fim de semana comprei três garrafas da minha bebida de preferência e passei mal. Eu só comia bolachas, quentinhas péssimas, banana e refrigerante, além do álcool. Me sentia tão fraca, quando comecei a me perguntar se essa era a vida que eu queria levar. Um dia fui ao shopping da minha cidade, pedi o número de Alcoólicos Anônimos, comecei a frequentar as reuniões online da minha cidade, depois as reuniões de composição feminina e fiquei obsecada com o programa dos Doze Passos.
No começo foi difícil, eu nem conseguia abrir a câmera de tanta vergonha e só chorava, era muita dor. O tempo foi passando, adotei três gatos, me tornei mais proativa no trabalho e estou mais espirtitualizada. Todos os dias eu faço primeiro as primeiras coisas, o que me ajuda a cumprir todas as tarefas. Estou buscando sempre me melhorar como pessoa, identificando os meus defeitos de caráter e as minhas virtudes. Enfrento as questões do dia-a-dia com a programação do “Evitar o primeiro gole”, “Por mais 24 horas” e o “Só por hoje”. Todos os dias acordo me lembrando que sou uma alcoólica e que não há problemas que me façam ir ao primeiro gole.
Aos poucos vou retomando minha vida social, sempre prestando atenção aos possíveis sinais de recaída. Não imaginava que ia conhecer tantas pessoas que me ajudaram nas reuniões online, o que aconteceu na Convenção de A.A. de 2022, em Minas Gerais.
O luto da minha mãe completou três anos e ainda não superei a dor. Esse artigo, inclusive, foi entitulado "Infinito" porque minha mãe tinha um anel com o símbolo do Infinito, dado por uma paciente dela, que era uma alcoolica em recuperação. Um amuleto que tenho para minha recuperação. Além dos meus companheiros de A.A. com os quais divido minhas dores e minhas felicidades - vamos juntos!
Gratidão por poder compartilhar e voltem sempre.
► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)