DEPOIMENTO: A coisa mais gostosa dos problemas é encontrar a solução (D)

  • Nayana, 39 anos, Manaus/ AM, para o site Colcha de Retalhos.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Sou Nayana, tenho 39 anos, natural do Rio de Janeiro e morando em Manaus há quase sete anos.
 
Minha relação com a compulsão vem desde muito cedo, quando sob controle de minha mãe, nadava quatro horas por dia, como esportista confederada em natação.  Com as atividades escolares, não me permitia mais nadar tanto, e daí a comida se tornou meu objeto de desejo e me tornei obesa.  Aos 21 anos fiz a cirurgia bariátrica - era o segundo ano dessa prática no Brasil.  Minha mãe, psicóloga, chegou a me alertar sobre o cuidado que eu deveria ter com o álcool, e que isso poderia ser um risco de vida no meu caso.
 
Nesta época, eu estava bastante focada nos estudos da faculdade e na iniciação científica, minha compulsão era tirar as melhores notas e ser “a aluna”.  Eu bebia sim, mas ainda com controle da ingesta de álcool; tomava um porre ou outro em dias que podia extrapolar, mas na maioria das vezes sabia dizer "tenho que ir embora" e ia.
 
Chegou o Mestrado, o casamento, a gravidez e a perda de uma filha que teve má formação congênita aos 7 meses.  Comecei o Doutorado, quando minha mãe faleceu dormindo, por um mal súbito.  Foi um susto e um abismo... Eu era filha única e meus pais já estavam separados há muito tempo.  Minha mãe era meu amparo para tudo.  Três meses depois, foi meu marido quem faleceu.  E, em meio a todas essas dores, a bebida passou a ser anestesia - todavia tinha o Doutorado para concluir e minha orientadora sempre foi muito incrível, apesar de dura.  Concluí o que precisava ser concluído.
 
Oito meses depois, engravidei de um namorado, que disse não querer ser pai e recomendou que eu encerrasse a gravidez, que estava na décima segunda semana.  Eu respondi que não o obrigaria a ser pai e seguiria com a gestação.  Durante esse período, bebia cerveja sem álcool.
 
Quando meu filho nasceu eu pude contar com apoio de amigas mas, durante anos posteriores, ser mãe foi solitário.  Quando ele completou 5 meses, tivemos que nos mudar para Manaus, cidade da minha família paterna e onde aparecera uma boa oportunidade de emprego.
 
Dois meses depois, meu filho largou meu peito e um novo abismo, que eu não reconheci, se abriu na minha vida.  Para lidar com mais essa perda, vi no álcool uma recompensa para abrandar a dor.  Eu pagava minhas contas, tinha uma atividade profissional e, ao final do dia, tinha um encontro marcado com a minha cerveja de verdade.  O encontro foi se estendendo para uma parte da noite, depois no avançar da madrugada - e a saideira já não era uma saideira.  Quando me dei conta, estava bebendo de manhã para parar de tremer.
 
Quando olhava meu filho, com seus 2 anos, pensava que não era isso que ele merecia, porém eu estava completamente vazia emocionalmente e sem nem se quer conseguir olhar para mim.  Um dia pela manhã, à frente do espelo, lembrei que minha mãe dizia ser o brilho do meu olhar, a minha característica mais bonita.  Esse brilho estava opaco, foi quando decidi procurar Alcoólicos Anônimos.  Mas, como estávamos em novembro, decidi que faria isso quando voltasse das férias (risos)!  Podem imaginar como foram minhas férias, né?!  E os porres passaram a ser frequentes, derrota sobre derrota, até que, em fevereiro de 2019, entrei em uma sala de A.A..  Segui os conselhos dos 90 dias e 90 reuniões, peguei minha ficha de três meses no dia do meu aniversário, e as coisas foram se organizando, os problemas escondidos e anestesiados pelo álcool foram se tornando reais e vividos, e eu fui aprendendo a resolvê-los com os princípios da recuperação em A.A..  Ganhei um bolo dos meus companheiros de grupo, quando completei 1 ano de sobriedade.
 
Daí veio a pandemia da Covid e para lidar com o medo, o desespero e a certeza de que eu e meu filho só tínhamos um ao outro, me agarrei às reuniões online, em diferentes cidades.  Passei de estar em Alcoólicos Anônimos para ser uma AA; comecei a entender e viver os Passos; aprendi que hoje é o único dia que posso fazer algo pela minha vida. Hoje, vejo que a vida é feita de escolhas e que sou eu quem decido o que fazer com os problemas que aparecem.  O problema é como um limão que posso chupar puro, me azedar e azedar tudo e todos ao meu redor, ou posso consumir o mesmo limão e fazer uma limonada refrescante e dividir com os que estão ao meu redor.  O limão é o mesmo, mas o que fazer com ele é uma escolha minha.  Assim como a estrada da vida, na qual dirigimos, tem a bela paisagem que nos atrai e contorna o horizonte onde queremos chegar; mas, em alguns momentos, também é muito importante olhar no retrovisor e lembrar dos buracos ultrapassados.  O que vale na estrada da vida não é não dar ré para cair nos mesmos buracos, e sim acelerar e frear quando novos buracos surgirem, tendo fé que “... além do horizonte deve ter, algum lugar bonito pra viver em paz, onde eu possa encontrar a natureza, alegria e felicidade com certeza...”1.
 
Nesta estrada da minha vida, estou casada, meu marido assumiu a paternidade do meu filho e juntos vivemos uma vida em paz, sabendo administrar os problemas que estarão sempre aí.  Hoje eu entendo que a coisa mais gostosa dos problemas é encontrar a solução para os que tem solução, e entregar ao Poder Superior os que não posso solucionar, pois já estará solucionado.
 
Sou extremamente grata a Alcoólicos Anônimos, ao Poder Superior e a mim mesma.  Sem A.A. eu não conseguiria ter chegado até aqui; sem o P.S. não sou nada e por mim que encarei a realidade da vida, suportei o processo e vivo o propósito de uma vida em paz, sem o álcool!  Só por Hoje!
 
(1) "Além do Horizonte", música de Roberto Carlos.

► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)