DEPOIMENTO: Do coma ao entendimento da vontade do Poder Superior

  • X, Rio de Janeiro / RJ, para o site Colcha de Retalhos.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Ingressei em Alcoólicos Anônimos, em 2017, indicado pela minha psicóloga. Fui a uma sala presencial, no bairro onde moro no Rio de Janeiro, e só tinham homens. Fiquei muito constrangida. Foi tudo muito confuso, leram umas perguntas, me perguntaram se eu queria fazer parte e eu disse que sim, sem a menor credibilidade em nada, um sim meio que sob pressão. Naquela época, eu tinha vindo de uma tentativa de suicídio, pós término de relacionamento, com álcool de cozinha e mais de 200 comprimidos de medicamentos psiquiátricos. Fiquei 21 dias em coma no hospital e sobrevivi por um milagre do Poder Superior. Ele me queria aqui! eu só não sabia por qual motivo. Fui diagnosticada com transtorno afetivo bipolar, personalidade borderline e alcoólatra. Os médicos disseram ao meu irmão que se eu sobrevivesse, ficaria com sequelas e de fato fiquei, mas por uma graça divina elas foram temporárias. Eu pesava 53 kg com 1,70 cm de altura, muito magra, pois eu não me alimentava, só bebia. Fiz cirurgia bariátrica em 2004 e estava com graves deficiências nutricionais, tive neuropatia alcoólica (uma doença neurológica, onde os sintomas eram choques fortíssimos e queimação intensa nas pernas) e tive que parar a minha vida para me dedicar às consultas com psiquiátricas, psicóloga, neurologista, hematologista, fisioterapeuta, nutricionista, reuniões de Alcoólicos Anônimos e de outra irmandade para mulheres. Nesta irmandade de mulheres conheci uma companheira que era uma A.A e estava sóbria há mais de 20 anos e que também tinha transtorno afetivo bipolar. Ela me convidou para ir em outro grupo presencial e disse que lá eu conheceria outras companheiras. Quando tive contato com os depoimentos das companheiras comecei a me identificar, me sentir pertencente e voltei. Depois que perdi aquele primeiro bloqueio, as primeiras impressões, pois eu achava que alcoólatras eram aquelas pessoas humildes, que bebiam bebidas fortes, baratas e ficavam caídas nas calçadas, encontrei um grupo base que frequentei por um período e eu não ficava mais constrangida com os homens. Só que eu não tinha madrinha, não lia a literatura, frequentava as reuniões só quando bem entendia e vivi recaindo.
 
Quando chegou a pandemia, com a impossibilidade de sair de casa e os grupos fechados, conheci um grupo de São Paulo online. Lá comecei a entender a importância de estar todos os dias nas reuniões, porém continuava sem ler a literatura, estava mal apadrinhada, pois me envolvi afetivamente com os 2 padrinhos que tive, não passei do terceiro passo e as recaídas eram uma questão de meses para acontecer. Atualmente, estou há 8 meses sem beber, deixei minha teimosia de lado, frequento diariamente meu grupo base (online e presencial), aqui no Rio de Janeiro, tenho uma madrinha que é uma luz no meu caminho, tenho companheiras de confiança que converso e peço orientações, leio a literatura, estou sem me relacionar, consegui parar em um trabalho, estou feliz e grata com os milagres que a programação têm feito na minha vida e me sinto uma outra pessoa (as pessoas comentam que eu mudei de atitudes e fisicamente) e tudo ao meu redor se modificou. Agradeço ao Poder Superior por ter me mostrado o porquê de ter me deixado viver, por ter me dado uma nova chance, para levar a mensagem à outros Alcoólicos que ainda sofrem como um dia eu sofri, à essa irmandade maravilhosa que é a minha segunda família, às companheiras que tanto me inspiram como mulheres guerreiras que deram a volta por cima para viverem uma nova vida em vida, à minha madrinha querida que é usada pelo Poder Superior para me guiar.
 
► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)