DEPOIMENTO: Minha história é só mais uma das clássicas

  • Marina, 42 anos, para o site Colcha de Retalhos.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Meu nome é Marina, sou uma alcoólatra em recuperação e hoje eu não bebi. Tenho 42 anos de idade e há dois anos e um mês eu venho evitando o primeiro gole, àquele que me leva a buscar o fundo das garrafas e a ter comportamentos absolutamente insanos.
Minha história com o alcoolismo é só mais uma das clássicas contadas diariamente em uma sala de AA: sou neta de alcoólatra, filha de alcoólatra e irmã de alcoólatra. Experimentei bebida alcoólica desde a primeira infância. Fui obesa até os 27 anos, quando me submeti a uma cirurgia de redução de estômago, a Bariátrica. Tendo emagrecido, me autorizei a beber e a me embriagar. O sentimento de inadequação por ser gorda deu espaço à falsa sensação de liberdade e isso incluía o consumo desmedido de álcool.
Cheguei na Irmandade de Alcoólicos Anônimos com 40 dias de abstinência, depois de anos de uma ativa progressiva. Estava na fase dos temidos apagões, das ressacas intermináveis, do beber diariamente, isolada em casa por conta do alcoolismo e da pandemia de Covid 19. Tinha terminado um relacionamento de 7 anos que, hoje vejo com clareza, era tão doente quanto eu e que me levou a beber ainda mais.
Com minha mente completamente atordoada pela crise de saúde mundial, pelas reviravoltas da minha vida pessoal e, sobretudo, pelo consumo exagerado de bebida, busquei ajuda de um coletivo feminino por acreditar que assim seria mais fácil “dar um tempo na bebida”. Lá recebi um link para uma reunião online de AA e foi dessa maneira que encontrei meu grupo base.
Desde então, frequentando as reuniões, conversando com os companheiros e tendo acesso à literatura, aprendi muito sobre o alcoolismo e o comportamento alcoólico. Aspectos da doença que explicaram muitos dos acontecimentos da minha vida enquanto familiar de alcoólico e, posteriormente, como doente alcoólica.
 
Hoje, dois anos e um mês depois de ter dado àquele último gole, num fim de semana em que finalmente percebi que eu estava apenas existindo e não vivendo, posso afirmar que a mente está mais tranquila, os pensamentos estão mais organizados e já consigo escrever com a minha própria caligrafia, já que os tremores acabaram. Voltei a ter memória e recuperei a capacidade de ler e entender. Coisas simples mas que fazem toda a diferença para uma vida íntegra e útil.
Assim, dezesseis anos após de ter realizado minha cirurgia bariátrica e por ter conhecido Alcoólicos Anônimos, de fato sou livre para fazer o que eu quero da minha vida, inclusive não beber.
 
 
► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)