DEPOIMENTO: Da tradição familiar à sobriedade
Sou Joelma, uma alcoólica e hoje estou sóbria. São 28 anos de sobriedade e sou do interior de Minas.
A minha relação com o álcool, tenho certeza que, começou no ventre da minha mãe. Vendo todo o processo, ela já tinha três filhos quando eu nasci. A caçula já tinha 10 anos e ela ficou grávida de mim, e 11 meses depois nasceu meu irmão. E pelo que a família contava, não foi uma gravidez muito desejada e eu entendo a situação.
Minha mãe é uma mulher negra, de uma família bem miscigenada e meu pai branco descendente de português com quase 2 metros de altura, e eles eram muito queridos.
Eu negra do cabelo liso e meu último irmão loiríssimo. Era muito engraçado porque nossa diferença de idade era de apenas 11 meses e nós muito diferentes.
Eu sempre fui uma pessoa muito compulsiva. Eu lembro que com 4 ou 5 anos, num sítio que a gente tem, eu tomei 100 comprimidos de Melhoral infantil. Eu não podia ver medicamento que eu tomava.
Meu pai começou a beber pouco depois que eu nasci. E foi um alcoolismo muito crescente e muito forte. Ele era filho de alcoólatras, mas nunca tinha bebido. Quando começou a beber foi arrebatador. Em 7 anos ele perdeu todos os imóveis da família. Ele e minha mãe brigavam todos os dias. Aqui no interior todos tinham armas, então eu me lembro daquelas brigas terríveis, de papai sair correndo e mamãe mandando bala para tudo que é canto. Era uma coisa bem doentia.
Eu cresci nesse ambiente. Meus três irmãos mais velhos já eram adolescentes e eu uma criança de 5 anos. Comecei a nadar muito cedo e viajava muito com meu pai. Era a queridinha dele. A preta do papai. Então minha mãe ficava com os três adolescentes e o caçula e eu com meu pai para todos os lados. Até em bares ele me levava e me colocava em cima da mesa de sinuca enquanto bebia e conversava.
São lembranças remotas que eu tenho, mas muito queridas, pois sempre me senti muito protegida com meu pai. De certa forma ele meu deu uma postura de vida muito grande. Apesar do alcoolismo dele, ele me ensinou a enfrentar a vida, as situações .
Eu sempre experimentei bebida, nas festinhas de família e quando juntava gente em casa. Bebia licor, dava aquelas bicadas. E era um hábito normal dar bebidas para as crianças. Meu pai tomava cachaça e quando sobrava no copo colocava açúcar e me dava. Com 9 anos eu já bebia bem. Roubava cachaça dele embaixo da pia.
Era muito precoce. E desde que eu descobri que era preta passei a ter uma postura agressiva na vida. Eu evitava qualquer tipo de comentário. Ou seja, se chegasse algum comentário até mim na escola, por exemplo, eu já ficava agressiva e aprontava. E aos 10 anos eu fui pra uma escola maior, católica e lá o preconceito era maior. Lembro que aos 11 anos eu arrumei uma briga tão feia que derrubei uma freira e acabei sendo expulsa da escola. Fiquei com muito medo da minha mãe e fui no trabalho do meu pai, ele mesmo disse que teríamos de procurar outra escola antes de falar com a minha mãe que era muito brava.
Fui pra outra escola e aos 12 fui expulsa dessa escola por ter brigado com o diretor. Meu pai sem saber o que fazer me colocou para trabalhar de dia e estudar a noite. Aí achei meu espaço. Comecei a beber muito, pois trabalhava e bebia antes de ir pra escola.
Logo depois começaram a entrar outras substâncias. Eu sempre bem agressiva fora de casa, mas em casa eu era amorosa.
Percebi que por ser negra eu tinha que fazer tudo dobrado. Ser a melhor aluna, a melhor profissional. Já que eu era a única negra do local de trabalho.
Logo comecei a namorar, homens brancos. E sempre era muito objetificada, como a morenaça. Isso despertava mais minha agressividade, pois eu queria ser reconhecida pela minha inteligência.
Com 14 anos eu já dirigia sem carteira, namorava e continuava trabalhando, estudando, bebendo e agora usando outras drogas.
Aos 16 anos eu adotei meu filho, mesmo nessa loucura. E sempre, brigando muito contra a sociedade por conta de racismo.
A minha mãe era uma negra preconceituosa. Ela não gostava quando eu namorava negros e dizia que não queria fazer tranças em netos, o que me deu raiva de ter cabelo liso, por exemplo.
O álcool era meu amante, amigo e namorado.
Quando cheguei aos 21 anos eu tinha uma loteria... bebia e usava muitas drogas...cocaína, las, maconha.
Eu namorava o mesmo rapaz desde os 17 anos, era um relacionamento muito tóxico. Ele era loiro, descendente de italiano. Não sofria preconceito por parte da família dele, mas estava muito acelerada no álcool e drogas e Comecei a perder tudo. Eu queria me separar dele e ele de mim, mas as famílias queriam que a gente casasse, pois já namorávamos há muito tempo.
Comecei a me apavorar pois percebi que não tinha controle e via o que estava acontecendo comigo e não sabia o que fazer. Mesmo sendo de religião, eu ia drogada fazer palestra sobre o evangelho
Comecei a frequentar uma psicóloga, que me mandou para um psiquiatra, e como boa mentirosa que era, saia de lá cheia de remédio. Drogas Lícitas, mas eram drogas.
Já tinha tentado me matar. E meu noivo era dono de farmácia, o que facilitava a pegar muitos remédios.
Até que um dia recebi a visita de um vizinho procurando um rapaz que morava perto. Esse rapaz não estava mais por lá. Perguntei para o vizinho o que ele queria e reparei num medalhão que ele carregava.
Perguntei o que era e ele respondeu que procurava o rapaz para pedi-lo para entregar esse medalhão em sua conquista de 17 anos em alcoólicos anônimos.
Eu perguntei se esse negócio de A.A. funcionava, ele disse que sim e me chamou pra ficha dele. Perguntou se eu bebia e eu respondi que comia com farinha.
E assim, fui na reunião de entrega de ficha dele e encontrei vários amigos do meu pai de quando eu era pequena.
Quando a reunião começou e eu ouvi os depoimentos eu me reconheci e vi que estava no local certo. Eu ouvi alguns “aindas” que não haviam acontecido comigo como: Não ter sido presa ou ido pro sanatório, mas estava claro que se eu continuasse isso ia conhecer ou eu ia morrer, ou morar na rua.
Quando perguntaram se alguém tinha o desejo de parar de beber eu levantei a mãos.
Recebi a ficha amarela e o livro azul, que o devorei em uma noite. Aquele livro era eu, e passei a ir nas reuniões todos dos dias. Não via uma mulher preta em grupo e isso me irritava, mas eu ia, até que passei a ir em duas reuniões por dia.
A vida foi acontecendo. Tive muita abstinência, tremia e vomitava, mas continuei, pois sabia que não podia beber nem usar mais nada. Eram as duas reuniões por dia que me salvava.
Eu não sabia quem era. Comecei a beber com 9 anos e descobri que eu era em Alcoólicos Anônimos. A dificuldade da mulher negra de chegar em A.A. é muito grande ainda e eu não falava sobre essa questão, pois falavam que era “mimimi”.
Hoje eu celebro que consegui ficar sóbria e criar meu filho, mas ainda me sinto devedora, quando faço uma faculdade, por causa da minha negritude. Cada abordagem na rua, cada mulher negra que não consegue chegar em A.A. me doi, mas A.A. me ensinou a seguir e hoje além de sóbria, ajudo as mulheres pretas à chegarem em A.A..
Eu devo minha vida à Alcoólicos Anônimos, pois hoje me amo e me acolho.
Em 2018 conheci a Colcha de retalhos. Trabalho voltado à mulheres em Alcoólicos Anônimos. Foi incrível, um evento enorme e apenas oito mulheres negras. No segundo evento da Colcha. apenas três mulheres negras.
Mas estamos nas salas. A próxima colcha será no Nordeste e a colcha traz essa possibilidade de mulheres e mulheres pretas chegarem em A.A., e mais que isso, as índias , as ribeirinhas, as mulheres juntas, o feminino se juntando para ajudar outras a se recuperarem do alcoolismo.
Serenas 24hs
► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)