DEPOIMENTO: Troquei a comida pelo álcool (D)

  • Bianca, 39 anos, São Paulo/ SP, para o site Colcha de Retalhos.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Comecei a beber mais tarde, depois dos 30 anos, e depois de fazer a cirurgia de redução de estômago.   Hoje sei que migrei da compulsão pela comida para o álcool.
 
No começo, eu bebia socialmente e tinha uma vida mais ativa, porém fui ficando sobrecarregada de problemas, deprimindo, e pouco a pouco comecei a beber mais e mais  Buscava desculpas para beber, fosse por momentos bons ou ruins. 
 
Tenho 2 filhos adolescentes e minha relação com eles, naquela época, passou a ser de ausência (mesmo estando presente fisicamente), impaciência e infelicidade com tudo.  Meu casamento também estava ruindo.  Eu fazia tratamento psiquiátrico, mas não cogitava em parar de beber naquela época; acreditava a bebida era meu único refúgio e não a via como a grande responsável pelo caos que virou minha vida e a da minha família. 
 
Um ano depois, aceitei uma internação, na tentativa de resgatar meu casamento e tranquilizar meus familiares.  Durante um ano, passei por três clínicas, e ao sair de cada uma, voltei a beber. 
 
Na quarta internação eu já estava separada do meu marido, me sentindo esgotada emocional e fisicamente, totalmente incapaz de ficar sóbria.  Eu acreditava que passaria o resto da vida recaindo e mentindo que não tinha bebido, todavia o medo de morrer me fez buscar ajuda.  Eu decidi dar esse passo e, quando recebi alta, resolvi finalmente fazer o que já haviam me sugerido antes, frequentar reuniões de Alcoólicos Anônimos.
 
Era pandemia ainda, os grupos e A.A. funcionavam de forma online.  No começo eu ia por obrigação, era parte da minha rotina, como um tratamento.  Aos poucos, passei a frequentar as reuniões por prazer, tinha criado vínculo com as pessoas e acreditei que tinha chance.  Eu sempre encontrei nas pessoas uma real vontade de ajudar e aprendi que é nessa engrenagem de ajudar que também somos ajudados.
Estou sóbria há 2 anos e 9 meses, reatei meu casamento durante esse processo de recuperação, e sou uma mãe presente na vida dos meus filhos.
 
Alcoólicos Anônimos mudou minha vida ao ensinar-me a viver um dia de cada vez.  O símbolo da irmandade é uma tartaruga, que anda passo a passo, para frente e sem pressa.  Assim tem sido minha vida, em todos os aspectos.  Frequento ativamente as reuniões e lá compartilho minhas vitórias e também minhas dificuldades, sem qualquer julgamento.  O A.A. é acolhimento e pertencimento.
 
Não preciso mais beber por absolutamente nada e sei que se der o primeiro gole, só terei perdas.  Sou uma nova pessoa e tenho muita vida pela frente.
 
 
► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)