DEPOIMENTO: Troquei a comida pelo álcool (D)
Comecei a beber mais tarde, depois dos 30 anos, e depois de fazer a cirurgia de redução de estômago. Hoje sei que migrei da compulsão pela comida para o álcool.
No começo, eu bebia socialmente e tinha uma vida mais ativa, porém fui ficando sobrecarregada de problemas, deprimindo, e pouco a pouco comecei a beber mais e mais Buscava desculpas para beber, fosse por momentos bons ou ruins.
Tenho 2 filhos adolescentes e minha relação com eles, naquela época, passou a ser de ausência (mesmo estando presente fisicamente), impaciência e infelicidade com tudo. Meu casamento também estava ruindo. Eu fazia tratamento psiquiátrico, mas não cogitava em parar de beber naquela época; acreditava a bebida era meu único refúgio e não a via como a grande responsável pelo caos que virou minha vida e a da minha família.
Um ano depois, aceitei uma internação, na tentativa de resgatar meu casamento e tranquilizar meus familiares. Durante um ano, passei por três clínicas, e ao sair de cada uma, voltei a beber.
Na quarta internação eu já estava separada do meu marido, me sentindo esgotada emocional e fisicamente, totalmente incapaz de ficar sóbria. Eu acreditava que passaria o resto da vida recaindo e mentindo que não tinha bebido, todavia o medo de morrer me fez buscar ajuda. Eu decidi dar esse passo e, quando recebi alta, resolvi finalmente fazer o que já haviam me sugerido antes, frequentar reuniões de Alcoólicos Anônimos.
Era pandemia ainda, os grupos e A.A. funcionavam de forma online. No começo eu ia por obrigação, era parte da minha rotina, como um tratamento. Aos poucos, passei a frequentar as reuniões por prazer, tinha criado vínculo com as pessoas e acreditei que tinha chance. Eu sempre encontrei nas pessoas uma real vontade de ajudar e aprendi que é nessa engrenagem de ajudar que também somos ajudados.
Estou sóbria há 2 anos e 9 meses, reatei meu casamento durante esse processo de recuperação, e sou uma mãe presente na vida dos meus filhos.
Alcoólicos Anônimos mudou minha vida ao ensinar-me a viver um dia de cada vez. O símbolo da irmandade é uma tartaruga, que anda passo a passo, para frente e sem pressa. Assim tem sido minha vida, em todos os aspectos. Frequento ativamente as reuniões e lá compartilho minhas vitórias e também minhas dificuldades, sem qualquer julgamento. O A.A. é acolhimento e pertencimento.
Não preciso mais beber por absolutamente nada e sei que se der o primeiro gole, só terei perdas. Sou uma nova pessoa e tenho muita vida pela frente.
► Ouça o depoimento no Canal YouTube da Colcha de Retalhos (em breve)