DEPOIMENTO: Impressões de uma recém-chegada (D)

  • Anônima, idade, Cidade/ Estado, para o livreto COLCHA DE RETALHOS.

Pessoas Alcoólicas e Interessadas


Quando cheguei em Alcoólicos Anônimos, não tinha a mínima intenção de parar de beber; comigo estava tudo legal.  Afinal de contas, fazia dezoito anos que eu trabalhava e dava conta do recado.  De fato, eu não tinha absolutamente nada que prestasse como resultado dos meus dezoito anos, exceto um carro meio bombardeado que sequer estava pago.  Nem roupas, nem dinheiro, nem casa, nem amigo, só o corpo e a mente estuporados, mas dizia que comigo estava tudo legal.
 
Além de ser uma beberrona, tinha também um sério problema com outras substâncias e com tudo mais que as acompanha: eu mentia, furtava o que podia, enganava a todos e a mais alguns; passava o conto do vigário em quem podia e passava ao largo das pessoas com quem não podia fazê-lo.
 
Então, aconteceu uma coisa terrível.  Acabaram-se as pessoas!  Nem mesmo minha família tinha mais o que fazer comigo.  Quando me viam chegando, trancavam a sete chaves a porta de casa e qualquer outra coisa de valor que estivesse visível.  Eu me sentia sozinha e magoada, pois ninguém me compreendia.  Tinha tanta autopiedade que, por diversas vezes, tentei suicidar-me, sempre depois de ter certeza de que alguém estaria suficientemente perto para evitar que eu fizesse o serviço bem feito e completo.  Todas as vezes em que o tentei, estava bêbada ou dopada, ou então, bêbada e dopada ao mesmo tempo - geralmente o último caso.
 
Certa vez, telefonei ao meu cunhado e disse-lhe que ia tomar um punhado de pílulas - na realidade eu já tinha tomado - e ia cortar os pulsos caso ele não viesse impedir-me.  Sabendo que ele estava sóbrio, cronometrei a coisa exatamente, de modo que eu poderia cortar os pulsos justamente quando ele chegasse ao topo da escada.  Nem mesmo me passou pela cabeça que, se ele resolvesse não vir, logo eu estaria comendo grama pela raiz.  Mas, ele veio, e fui passar uns tempos num hospital psiquiátrico.  Saindo de lá, aguentei-me em casa uns quinze minutos e já corri para a farmácia, onde comprei mais pílulas e saí direto para o bar.
 
Naqueles dias, eu era linda.  Meu cabelo era de um amarelo oxigenado (pela metade, já escuro na raiz), arrepiado como um espanador e nem lembrava mais o que é um pente.  Tinha também calças amarrotadas que não tirava nem para dormir.  E uma blusa ou suéter ensebado, que usava sem sutiã, e pesava quarenta quilos.  Eu sempre me lembrava de abrir a boca quando se tratava de uma bebida, mas parece que, em alguma sessão de maquiagem, esqueci-me de cuidar dos dentes.  Sapatos rotos, pés imundos e, se tivesse sorte de ainda estar vestindo meias, ninguém observaria como estavam desfiadas, por causa da minha beleza estonteante (com minha agenda totalmente cheia, não sobrava tempo para tomar banho).  Meu estado era tal que eu nem tinha dificuldade para obter que algum estranho me pagasse um trago - na realidade, ele o fazia para livrar-se de mim.
 
Tenho a firme convicção de que é muito mais penoso para uma mulher alcoólica readquirir o respeito próprio do que para um homem.  Os homens são supostamente fortes e rijos por natureza, porém, se uma mulher tornar-se durona, forte e rija, depois será muito difícil para ela readquirir qualidades mais amenas, consideradas tipicamente femininas.
 
Bebi dos meus doze aos trinta e dois anos.  Desperdicei vinte anos da minha vida, e nada mais posso fazer a respeito disso, porém posso fazer alguma coisa com relação a hoje.  Tive realmente muita sorte porque não cheguei a sofrer danos cerebrais.
 
Minhas múltiplas dependências finalmente trouxeram minha prisão.  Fui setenciada a seis meses de cadeia por consumo de drogas.  Desde então, não voltei mais a elas.  Fico imaginando o que deve ter sido a vida da minha mãe; naquele mesmo ano, dois de seus filhos e uma filha estavam cumprindo pena em cadeias.  Algunsanos mais tarde, perdemos o irmão mais velho num incêndio por causa da pinga e das outras drogas.  Hoje, nós sobreviventes, estamos tods em Alcoólicos Anônimos e mnha mãe é membro de Al-Anon - Grupos familiares de alcoólicos.
 
Não há cura para o alcoolismo, mas, através do programa de A.A., é possível estacioná-lo.  Pude adquirir esse novo modo de viver - que consiste em aprender a conviver com minha doença, contente e alegre - desde que esteja disposta a modificar minhas atitudes, tornando-me honesta, primeiro comigo mesma e a seguir com os outros.  Aprendo a praticar os Doze Passos e as Doze Tradições tão bem quanto possa - todos os dias, um dia por vez.  Recebi a sugestão de não tentar consertar num só dia tudo que fiz de errado numa vida inteira.
 
Não dá para eu contar-lhes todas as coisas boas que já obtive através desse novo modo de viver.  Conheci um homem em A.A., casei-me com ele e sou mais feliz do que jamais havia sido em toda minha vida.  Ele é meu melhor orientador; sem ele, tenho certeza de que não teria progredido tanto como progredi.  Ele tem uma compreensão sem limites e o dom de compartilhar sua sobriedade.  Ele se importa muito comigo e com os outros, importa-se profundamente e ajuda.  Isso é algo muitíssimo importante para mim, porque eu sempre imaginava que ninguém se importava comigo.  Estava totalmente enganada.  Ele tem me ensinado que, nessa nossa vida, eu sou a pessoa mais importante de todas.  Para mim, minha sobriedade está acima da sobriedade dele e até mesmo dos meus sentimentos para com ele.  Ensinou-me também que, antes de tudo, tenho que ajudar a mim mesma; só depois é que, talvez, eu tenha condições de ajudar a outros.  Acredito - e isso me faz me sentir bem - que eu talvez o tenha ajudado.
 
É gostoso acordar de manhã sem ressaca, sabendo onde estive na noite anterior.  Percebo coisas boas e bonitas à minha volta, que antes nunca havia notado em meu estado de embriaguez.  Esse ano, plantei as primeiras flores no nosso jardim e estou realmente entusiasmada por ver os primeiros brotos crescendo. 
 
Se alguém me tivesse dito, ainda no ano passado, que eu ficaria assim com a jardinagem, eu ter-lhe-ia respondido que estava ruim da cabeça.  Se alguém me tivesse dito que eu estaria gostando de assistir a uma partida de basquete em companhia de meu marido e de meu irmão sem um gole de pinga, eu simplesmente não teria acreditado.  No domingo de Páscoa, fomos à igreja, meu marido e eu, e isso não doeu.
 
Sei que a palavra mais importante em A.A., para mim pelo menos, é honestidade.  Não creio que o programa teria funcionado comigo se, antes de mais nada, eu não tivesse me tornado honesta comigo mesma.  Honestidade é a palavra que eu entendo com maior facilidade porque é exatamente o contrário do que eu vinha praticando durante toda a minha vida.  Por isso, é com ela que terei mais trabalho doravante.  Claro que jamais serei totalmente honesta - isso equivaleria a tornar-me perfeita, e aprendi que nenhum de nós chegará à perfeição.  Somente um Poder Superior, Deus, como eu O concebo, é perfeito.  Porém, se eu for trabalhando nisso dia após dia, então, ficará mais fácil manter-me honesta comigo mesma.  E aí virá também a consequência automática: de eu vir a ser e manter-me honesta com outras pessoas.  Sei que ficarei muito grata quando tiver a oportunidade de fazer reparações a todas as pessoas a quem magoei no passado.
 
 
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