DEPOIMENTO: O esquema (D)
Meu beber desordenado tornou-se tão sério que cheguei a perder o domínio sobre a bebida e sobre minha vida; hoje, digo que cheguei a Alcoólicos Anônimos demente. Tal demência, apatia e depressão foram tão gritantes que chamaram a atenção de uma amiga da juventude, ao assumir a secretaria de estado onde eu trabalhava.
Teve início uma verdadeira maratona empreendida por ela, juntamente com minhas colegas, no sentido de me ajudarem: médicos, psiquiatras, psicólogos, terapeutas. Tudo inútil. Finalmente, depois dessas tentativas todas, colocaram na roda de ajuda um membro de A.A., hoje, meu padrinho. Um verdadeiro esquema foi armado para que eu chegasse à Irmandade.
Minha amiga e chefe, autoridade maior, ameaçou exonerar-me de um cargo comissionado e induziu-me, na base da obrigação (por eu ser assistente social), a "ajudar" Alcoólicos Anônimos. Assim, eu frequentava as reuniões, mas era tal o meu estado de insanidade que, ao término delas, eu atravessava a rua e entrava num bar para beber. Fiz isso durante dois longos anos, com os companheiros de A.A., praticando seu programa de tolerância e sempre me carregando com doses maciças de TCA - ternura, carinho e amor.
Meu despertar espiritual veio pela minha condição física, cada vez mais precária, e - por incrível que pareça -, pela minha vaidade pessoal, pois me achava cada vez mais feia. Senti necessidade de um regime alimentar rigoroso, e, nele, estava prescrita a proibição de qualquer tipo de bebida alcoólica e refrigerantes. Durante três dias, por quinze minutos, cada dia e no mesmo horário, passei na porta do bar onde bebia, tamanha era minha obsessão.
O resto ficou por conta da Irmandade. Meu contato contínuo com A.A. ensinou-me qual era a verdadeira natureza da minha doença e permitiu-me constatar que, quem mais precisava de ajuda era eu. Passei a desejar uma vida feliz e sóbria, evitando o primeiro gole um dia por vez, como os demais membros, que chegaram voluntariamente ao grupo.
Essa história permitiu-me aprender porque não temos o direito de privar ninguém da mensagem de A.A., não importando quem tenha enviado a pessoa, nem qual seja, a princípio, sua atitude. A Irmandade não está interessada em quem mandou quem, mas sim no bebedor problema que, uma vez entre nós, pode vir a passar por um despertar espiritual.