DEPOIMENTO: Metade amor e metade... também (D)
Cada um de nós tem sua história, sua emoção única da chegada a Alcoólicos Anônimos. Encontramos carinho, amor, apoio, compreensão e, principalmente, uma nova filosofia de vida e um programa de recuperação: os Doze Passos. Comigo não foi diferente. Em uma noite quente de agosto, depois de muitos percalços na vida, resolvi procurar A.A.. Numa cidade pequena de interior, onde nossa casa tem paredes de vidro e nossas vidas são radiografadas por muitos olhos, conhecidos e desconhecidos, cheguei à minha primeira reunião.
Fui encaminhada para uma sala no mesmo local onde funcionava um Grupo Al-Anon (Associação de familiares de alcoólicos), apesar de estar bem bêbada - porque, afinal, mulher não bebe! Fui recebida com carinho, paciência e tolerância. Deram-me um folheto para ler e, ao começar a fazê-lo, percebi que não era aquilo de que eu precisava, mas pela primeira vez, admiti, perante várias pessoas, que eu tinha problemas com o álcool e que estava procurando o lugar para pessoas que querem parar de beber. No mesmo instante, uma das mulheres levantou-se, tomou-me pela mão e levou-me até a porta de outro salão. Pediu para chamar seu marido. Quando ele chegou, ela colocou minha mão na dele e disse: "Ela busca por vocês".
Pela primeira vez, senti o contato com um membro de A.A., e senti que nada me seria cobrado nem perguntado, e não havia nenhuma condenação. Através daquela mão, fui levada para sentar-me numa cadeira na primeira fila (acredito que para poder entender melhor o que ali acontecia).
Um fato interessante daquela noite é que eu queria falar, perguntar, mas meu acompanhante dizia-me: "Calma, escute e preste atenção. Daqui a pouco, você fala". Outro fato que notei foi que, naquela sala, havia muitos homens e somente uma mulher. E foi essa mulher, doce como seu nome, que veio falar comigo na hora do café. Abraçou-me, deu-me de presente o livreto CARTA A UMA MULHER ALCOÓLICA(1) e apresentou-me seu marido, também membro de A.A.. Depois do café, ouvi um pouco de sua história e pensei: não preciso ter medo de ninguém aqui, todos são amigos.
Ainda naquela reunião, ouvi o depoimento do meu querido companheiro E.D., homem de fala dura, mas em quem notei grande honestidade e retidão de caráter, Foram meus três primeiros exemplos em A.A.: o homem que me deu a mão, a mulher que docemente me abraçou e o homem que falou duro, amaciando meu coração. Segui a sugestão mais ouvida naquela noite: evitar o primeiro gole e participar das reuniões. Passei a frequentar assiduamente as reuniões e comecei a ouvir falar em Doze Passos e Doze Tradições. Comecei a ler tudo que havia para ser lido.
Meu começo foi difícil, pois eu ainda não queria modificar algumas atitudes. Durante mais ou menos um ano e meio, fui uma das pessoas mais tumultuadas dentro do grupo. Foi quando resolvi praticar os Passos, impelida pela necessidade de viver (pois eu já pensava novamente em matar-me). Fiz meu inventário, sugerido no Quarto Passo, o Quinto Passo e comecei a sentir a sensação de liberdade, de amor e de fraternidade, pois, até então, eram muitas mágoas, ressentimentos e até mesmo ódios escondidos.
Comecei a trabalhar em A.A. por amor e não aparecer ou competir com outros companheiros. A prática dos Passos limpou minhas feridas, a obediência às Trdaições impediu que tais feridas infeccionassem e o Serviço tem levado à cicratização. As marcas ficaram, mas o tempo haverá de apagá-las.
Como mulher, foi difícil, para mim, enfrentar vicissitudes que advieram por eu estar em A.A.: dificuldades em casa, na sociedade e até dentro do próprio grupo. Mas, nehuma foi mais difícil do que estar bêbada, privada de identidade ou vontade.
Por isso, e apesar de todos os problemas, permaneço em A.A.. Através da dor e, às vezes, também, humilhações, venho me tornando uma pessoa inteira, mais meiga, doce, amiga, mais gente - e, sabendo que, como alguém já disse, "metade de mim é amor e a outra metade também"(2).
(1) O livreto CARTA A UMA MULHER ALCOÓLICA foi substituído pelo livreto COLCHA DE RETALHOS.
(2) Música METADE, de Oswaldo Montenegro.